A ESCOLA DO MEIO RURAL: A EDUCAÇÃO EM SÃO SEBASTIÃO (1966-1970)
Há
algum tempo a educação tem me despertado o interesse por observar um grande
número de iletrados nas comunidades periféricas de Teresina. Isso, talvez, por
manter um contato frequente com pessoas que não possuem intimidade com as
letras por não terem passado por um processo de letramento na idade adequada.
Apesar de tudo isso, elas não demonstram um total desapego em se tornarem
alfabetizadas. Fato que me instigou a refletir e questionar a condição desses
iletrados. Não seriam eles vítimas do sistema de ensino que falhou em não
assisti-los? Ou são frutos do seu próprio contexto que os estimulam a priorizar
a luta pela sobrevivência em detrimento da escola.
Mas
para tanto, não poderia haver ocasião mais oportuna para me aprofundar na
questão do que a pesquisa monográfica, que vai me ajudar examinar melhor o
processo educacional de ensino, principalmente por compreender o analfabetismo
como um problema crônico que persiste entre nós e a sociedade ainda não encontrou
os caminhos para sua erradicação, apesar dos incontrastáveis avanços, sobretudo
da década de 1960 para cá.
Assim
me encaminho às circunstâncias históricas da região que se situava o povoado
São Sebastião, identificado dentro de uma conjuntura agrário pastoril onde a
Igreja católica ainda mantinha uma atuação catequizante e assistencialista para
suprir a carência do Estado nas regiões ruralizadas, para proceder à pesquisa
da vida de sua comunidade no que diz respeito à educação no seu meio social. O
período é compreendido entre 1966 e 1970, coincidente com o governo de Helvídio
Nunes de Barros, chegado ao poder por via indireta. E é também nessa época que
ocorre dois fatos próximos que julgo importantíssimos para Teresina e o povoado
São Sebastião, que é o limiar da história da história da UFPI (Universidade
Federal do Piauí) em 1968 e a formalização, mesmo com muita precariedade e
improviso, em 1968 da primeira escola institucionalizada respectivamente. Razão
pelas quais conceituo que elegi o recorte temporal.
A
escola que havia antes não fornecia documentos por falta de uma
institucionalização, e consequentemente tampouco existia um seriamento para a
estratificação no ensino. Neste quadro encontramos as atividades de ensino nas
cercanias do povoado São Sebastião no município de Teresina, onde a educação
formal não era considerada essencial para a sobrevivência do homem local. O
pequeno agricultor além das atividades religiosas, que era um traço marcante da
comunidade e ainda o é, nas horas de folga praticava a pesca e a caça.
A
escolha do tema da educação adveio e foi amadurecendo na observação de um fato
comum que ocorria com grande parte dos membros das famílias numerosas, não
assinam o próprio nome, apesar da atuação de projetos como EJA (Educação de
Jovens e Adultos) que tem como público alvo jovens com 15 anos completos (Ensino
Fundamental) e 18 anos completos (Ensino Médio), adultos e idosos, pessoas com
deficiência, apenadas e jovens em conflito com a lei, que não tiveram acesso ou
continuidade de estudos na idade própria; e o Movimento Brasileiro de
Alfabetização (MOBRAL), criado pela Lei número 5.379, de 15 de dezembro de 1967,
que objetivava promover a alfabetização funcional de jovens e adultos, para
lhes propiciar melhores condições de vida a partir do acesso às técnicas de
leitura, escrita e cálculo para facilitar a integração da pessoa a sua comunidade.
O
projeto que tinha como objeto de pesquisa a Educação no meio rural ganhou notas
de segurança quando do contato com o livro de Antônio Sampaio Pereira, “VELHAS
ESCOLAS-GRANDES MESTRES” (1996), que me foi apresentado pela professora Msc. Márcia Santana Castelo Branco, no qual vislumbrei
a oportunidade de iniciar pesquisa científica com o intuito de aprofundar-me no
tema abordado, para examinar melhor o processo educacional no campo escolhido.
A
proposta deste Trabalho é discutir a condição político-social e socioeconômica
dos que habitam as áreas rurais sob o aspecto educacional, compreendendo o
recorte espacial do município de Teresina, e mais especificamente o povoado São
Sebastiao, no sentido de refletir sobre sua trajetória em um ambiente que,
embora a dureza da luta pela sobrevivência seja uma constante, não se diminuía
o respeito pelos conhecedores das letras, permitindo-se que analfabetos
cultivasse grande estima e respeito pelos “disarnadores de minino” nos rincões
onde o simples fato de reconhecer as letras poderia ser considerado algo raro,
digno de elevação de “status”, ambiente semelhante ao que meus avós paternos
vivenciaram.
Discutido em um contexto que à necessidade
de alfabetização contrapunha-se a necessidade de mão-de-obra para os trabalhos
da roça em detrimento da apresentação às letras, apoiado no senso comum que
orientava o campesino. Este foi por longos anos empecilhos para haver uma maior
escolarização dessa população configurando-se um problema social. Somava-se a
ele a falta de uma presença estatal, onde muitas vezes se acabava por deixar o
ofício da apresentação das primeiras letras a cargo dos Mestres de varanda ou
Mestre escola. Muitos deles autodidatas ou com pouca instrução, fizeram de suas
labutas verdadeiras missões de vida, desmitificando o mundo das letras a muitas
crianças e jovens desassistidos de instituição de ensino. E são os reflexos da ação, assim como
a falta, dos organismos de ensino formal
que discutiremos neste trabalho.
Nesse
contexto encontramos a comunidade de São Sebastião no município de Teresina, na
década que o Brasil assistia a uma troca de cadeira e papéis dos atores
políticos que com um golpe militar tomam o poder político, no limiar da
história da Universidade Federal do Piauí, tendo ainda que assistir a
comunidades afastadas do núcleo urbano carentes de oportunidades educacionais.
Esta localidade, como muitas outras que se encontravam num raio semelhante em
relação ao polo de desenvolvimento que era a capital, tinha sua economia
baseada na agricultura de subsistência e as pessoas que moravam agricultavam em
terrenos próprios era a exceção.
Buscaremos
amparo, dentre outros que se fizerem convenientes para a construção de um
arcabouço teórico, assim como a compreensão de como se desenrolava a educação
no contexto que nos propusemos, na análise do tema de Maria Lúcia de Arruda
Aranha(2002), Alcebíades
Costa filho (2006), Paulo freire (2002),Paulo Ghiraldelli Junior(2009), Maria Lúcia Spedo Hilsdorf (2003),
Sergio Selani Leite(2002), Antônio Sampaio Pereira(1996), José
de Ribamar Torres Rodrigues(1985/99), Otaíza de
Oliveira Romanelli(1991), Vanda Silva(2004) para se chegar
finalmente, com as devidas ponderações e reflexões, a uma visão mais íntima do
processo discutido e examinado sob base teórica consistente, que sustentarão
respostas para questões como: porque a região esteve por tanto tempo isolada?
Porque a educação formal demorou tanto tempo para se implantar? Qual a percepção
dos pais e estudantes sobre a Educação?
Qual o papel da escola dentro da comunidade? Os mestres tinham
conscientização sobre si mesmo e o desenvolvimento geral dos seus alunos?
Os procedimentos metodológicos que
serão utilizados guiará a pesquisa de modo particular sobre a pesquisa
bibliográfica e hemerográfica sob análise de fontes coletadas no APUP (Arquivo
Público do Estado do Piauí), atas de reunião dos professores da primeira escola
da comunidade.
Penetrar no cotidiano das
comunidades rurais de outras épocas somente através de legislação ou relatório
escrito por autoridade de ensino é tarefa muito difícil, para não dizer quase
impossível. Faz-se necessário o uso de outras fontes que serão encontradas
através da pesquisa, na busca de dados relevantes convenientes obtidos com a
insistência do pesquisador, com objetivo de se chegar à novas conclusões a
partir da bagagem experimental de vida das fontes orais que serviram de esteio
para a construção deste trabalho monográfico, que se divide em dois capítulos.
O primeiro abrange a educação informal num contexto geral sob o foco de Brasil
desde o seu nascedouro, analisando sua relação com o Estado que denuncia o grau
de importância recebido. O segundo vai enfocar a situação que se encontravam as
comunidades rurais no aspecto educacional revelando os anseios da comunidade
perante a necessidade ou não de estudo para manutenção de sua sobrevivência.
Todo o material coletado versará
sobre a educação no meio rural de Teresina no período compreendido entre 1.966
e 1.970, na busca de se observar o comportamento dos organismos públicos, assim
como a sociedade rural em torno educação. E isto se dará através da análise
criteriosa de todo o material levantado relevante à pesquisa, para que o
resultado da mesma não venha por finalidade distorcer, agredir ou adulterar conteúdo
principal, mas enriquecê-lo transformando-o em conhecimento.
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